BOAS VINDAS

A idéia deste blog é a criação de um espaço para o questionamento de duas grandes forças das ideologias atuais: o Capitalismo e o Socialismo. Que, senão são coincidentes,não são também totalmente opostas. Terceira Via é nada menos do que uma Resultante dessas duas forças. Abrindo assim, um campo para o existência de uma opção, que não é uma coisa nem outra e ao mesmo tempo são as duas coisas. Eu acredito muito nessa vertente, como alternativa para convergir anseios de ambas as correntes. Num olhar metodológico, poderiamos enxergar essa possibilidade como uma demonstração empírica da dialética. Enquanto o Capitalismo está mais associado ao racional, à eficiência, à lógica; o Socialismo está mais associado ao nosso cognitivo, à sensibilidade, sentimentos, percepções, etc. Acredito ainda, que só a Democracia viabiliza essa vertente. A Ditadura, sem dúvida, enviesará para o socialismo ou para o capitalismo radical. ENTÃO SEJA BEM VINDO, COLOCANDO SUA CONTRIBUIÇÕES, SUAS IDÉIAS, SUAS DÚVIDAS, ETC. (Paulo Franco)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Na Coréia do Norte, todos os caminhos levam à catástrofe

Por Jon Schwarz



O ASPECTO MAIS ALARMANTE do recente teste nuclear conduzido pela Coreia do Norte, no contexto da tensão crescente com os EUA, é o quão pouco se sabe sobre como realmente funciona o país asiático. Há 70 anos, a Coreia do Norte está isolada do resto do mundo – algo quase inconcebível para os tempos atuais, em que basta um clique para que uma pessoa em Buenos Aires compartilhe um vídeo de gatinhos em Kuala Lumpur. Poucos estrangeiros tiveram contato íntimo com a sociedade norte-coreana, e pouquíssimo podem falar com propriedade a respeito do país.

Uma dessas raríssimas exceções é a escritora e jornalista Suki Kim. Ela nasceu na Coreia do Sul e se mudou para os Estados Unidos aos 13 anos. Passou boa parte do ano de 2011 ensinando inglês para filhos da elite norte-coreana na Universidade de Ciência e Tecnologia de Pyongyang(PUST).

A jornalista já havia visitado a Coreia do Norte diversas vezes e escrito sobre a experiência para a Harper’s Magazine e a New York Review of Books. Ainda assim, inacreditavelmente, nem os responsáveis norte-coreanos pela estadia de Kim no país nem os missionários cristãos que fundaram e administram a PUST perceberam que ela estava infiltrada para realizar uma das missões de jornalismo investigativo mais arriscadas da história.

Embora todos os empregados da PUST fossem mantidos sob vigilância constante, Kim conseguiu guardar anotações e documentos em pendrives escondidos e no cartão de memória de sua câmera. Se tivesse sido descoberta, muito provavelmente teria sido acusada de espionagem e condenada à prisão nos terríveis campos de trabalho forçado do país. Dois dos três americanos atualmente presos na Coreia do Norte eram professores da PUST. O Pentágono já até usou uma ONG cristã como fachada para fazer espionagem na Coreia do Norte.

Mas Kim conseguiu não ser descoberta e pôde regressar aos EUA para escrever seu extraordinário livro, lançado em 2014: “Without You, There Is No Us” (“Sem você, não há nós”, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil). O título vem da letra de uma antiga canção norte-coreana; “você” é Kim Jong-il, pai de Kim Jong-un, atual líder do país.

O livro é especialmente relevante para qualquer pessoa que tenha a intenção de entender o que pode vir a acontecer na Coreia do Norte. A experiência a tornou extremamente pessimista sobre todos os aspectos do país, incluindo a resistência do governo a renunciar ao seu programa de armas nucleares. Ela considera que a Coreia do Norte funciona como um verdadeiro culto e que toda a existência do país anterior a esse sistema já foi apagada da memória coletiva.

Ainda mais preocupante foi perceber que seus alunos, rapazes no fim da adolescência e começo da vida adulta, estavam profundamente inseridos nesse culto. A autocracia da família Kim está na terceira geração, e seria de se esperar que as elites norte-coreanas já tivessem abandonado qualquer ideologia inicial e se corrompido, como é o padrão da humanidade. Mas seus filhos, alunos da PUST, não iam esquiar na Suíça durante as férias escolares, nem mesmo viajavam dentro do próprio país. Em vez disso, passavam as férias estudando a ideologia norte-coreana “Juche” ou trabalhando nas fazendas coletivas.

Não é de se espantar, portanto, que os alunos de Kim fossem completamente ignorantes sobre assuntos externos, incapazes de reconhecer fotos do Taj Mahal ou das pirâmides do Egito. Um deles disse ter ouvido que todas as pessoas no mundo falavam coreano, que teria sido reconhecido como o idioma mais avançado de todos. Outro aluno acreditava que o prato coreano “naengmyeon” era considerado a melhor comida do planeta. Ademais, estavam imersos numa cultura da falsidade. Contavam mentiras tão absurdas que Kim chegou a escrever: “Eu só podia imaginar que eles, meus queridos alunos, fossem loucos”. Apesar disso, eles eram também bastante humanos, de uma inocência encantadora, e se afeiçoavam aos professores.

A história contada em “Without You, There Is No Us” é, em resumo, de uma tristeza insuportável. A Coreia, ainda unificada, foi feita de joguete por Japão, EUA, União Soviética e China. Como tantas famílias coreanas, a de Kim tem parentes próximos que ficaram na Coreia do Norte quando ocorreu a divisão, e nunca mais foram vistos. Kim considera que a Coreia hoje está definitivamente fraturada:

Então, pensei que era tudo inútil, a fantasia de uma união coreana, os cinco mil anos de identidade. Porque uma nação unificada foi partida de forma irreparável em 1945, quando um grupo de políticos traçou uma linha aleatória sobre o mapa e separou famílias que jamais voltaram a se reencontrar. Seu ódio, sua tristeza e seu arrependimento não foram reconhecidos, e seus corpos se tornaram terra, parte desse solo…. Por trás dos filhos da elite que agora eram meus pupilos por um curto período, por trás dessas crianças adoráveis e mentirosas, eu via claramente que não haveria redenção possível.

The Intercept conversou recentemente com Kim sobre sua temporada na Coreia do Norte e a perspectiva que esse período deu a ela sobre a crise atual.


JON SCHWARZ: Achei seu livro insuportavelmente doloroso. Sou americano, e não consigo imaginar como é viver num lugar brutalizado por tantos países poderosos. O governo da Coreia do Norte, e, em menor escala, o da Coreia do Sul usaram esse sofrimento para consolidar seu poder. E talvez o mais triste tenha sido perceber que esses rapazes, seus alunos, ainda eram claramente pessoas, seres humanos, mas estavam inseridos num sistema terrível, programados para fazer coisas terríveis a seus conterrâneos.

SUKI KIM: Sim, porque não há outra forma de estar naquele país e não há outro país como aquele. As pessoas comparam com tanta facilidade a Coreia do Norte a Cuba, à Alemanha Oriental ou até mesmo à China, mas em nenhum desses países existiu algo semelhante ao que vem acontecendo na Coreia do Norte, esse nível de isolamento e controle que reúne as características de culto e ditadura. Enquanto estava lá, comecei a pensar que já é quase tarde demais para voltar atrás; os jovens com quem eu convivia nunca tinham vivido de outra forma.

Tudo começou com a divisão da Coreia em 1945. É comum pensar que teria começado com a Guerra da Coreia, mas a guerra só aconteceu por causa da divisão [da Coreia, realizada pelos EUA e pela URSS ao fim da II Guerra Mundial] em 1945. O que vemos hoje é a Coreia presa no limbo.

JS: Praticamente nenhum americano sabe o que aconteceu entre 1945 e o começo da Guerra da Coreia, e poucos sabem o que ocorreu durante a guerra. [Syngman Rhee, o ditador de extrema-direita instalado pelos EUA na Coreia do Sul, massacrou dezenas de milhares de sul-coreanos antes da invasão pela Coreia do Norte em 1950. Depois disso, já nos primeiros meses da guerra, foram executados pelo governo de Rhee mais cem mil sul-coreanos, até que um bárbaro ataque aéreo dos EUA matou cerca de um quinto da população da Coreia do Norte.]

SK: Sobre o tão falado “mistério da Coreia do Norte”, talvez as pessoas devessem se perguntar por que a Coreia é um país dividido e por que há soldados americanos na Coreia do Sul. Essas perguntas não estão sendo feitas. Quando você olha para a origem da situação, faz algum sentido que a Coreia do Norte use esse ódio pelos EUA como ferramenta para justificar e manter o mito do Grande Líder. O Grande Líder sempre foi o salvador, o libertador que protegia as pessoas do ataque do imperialismo americano. A História da Coreia do Norte se funda não só na filosofia Juche, mas também no ódio aos EUA.


JS: A partir da sua experiência, como você entende a questão nuclear na Coreia do Norte?

SK: Nada vai mudar, porque é um problema insolúvel, chegar a ser desonesto pensar que possa ser resolvido. A Coreia do Norte nunca vai desistir de ter armas nucleares. Nunca.

Só seria possível negociar com a Coreia do Norte se o regime não fosse o que é. Nenhum acordo é respeitado, simplesmente porque a Coreia do Norte não funciona assim, é uma terra de mentiras. Por que continuar tentando fazer acordos com alguém que nunca irá cumpri-los?

Todos os países ao redor da Coreia do Norte desejam uma mudança de regime político. Eles dizem, porém, que não é isso que querem, e fingem estar buscando acordos enquanto, na verdade, procuram meios de derrubar o regime.

O que resta a fazer é empreender esforços para envolver as pessoas, forçando a entrada de informação no país. Essa é a única alternativa, não vejo outra forma de causar mudanças na Coreia do Norte. Nada vai mudar se o lado de fora não despejar recursos lá dentro.

JS: Qual a motivação dos poderosos da Coreia do Norte para se agarrar às armas nucleares?

SK: Eles não têm outra alternativa, não têm literalmente nada além disso. As tentativas de negociação só continuam acontecendo porque eles são uma potência nuclear, é uma questão de sobrevivência. O que eles temem é a mudança do regime sobre o qual o país está assentado.

JS: Mesmo se o regime mudasse, seria difícil convencê-los, com argumentos racionais, a abrir mão do armamento nuclear, depois do que aconteceu com Saddam Hussein e Muamar Kadafi.

SK: É realmente uma equação simples: não há motivo para renunciar às armas nucleares. Nada vai fazer com que renunciem.

JS: Sempre me pareceu que a Coreia do Norte não faria o primeiro movimento numa guerra nuclear, até mesmo por um senso de autopreservação. A descrição que você faz dos seus alunos, no entanto, me fez pensar que o risco de um erro de cálculo por parte deles é maior do que eu imaginava.

SK: Era paradoxal: eles até podiam ser inteligentes, mas eram completamente iludidos sobre tudo. Não vejo como as pessoas que governam o país seriam diferentes. Aqueles com quem os estrangeiros têm contato, como os diplomatas, são sofisticados e conseguem conversar no mesmo nível. Mas até eles têm um outro lado, pois foram criados para pensar de forma diferente, sua realidade é distorcida. 

Para eles, a Coreia do Norte é o centro do universo, o resto do mundo simplesmente não existe. Eles viveram os últimos 70 anos dentro desse culto total.  Era 2011, e meus alunos não sabiam o que era a internet – alunos de computação das melhores escolas de Pyongyang. O sistema é assim, brutal, para todos.

JS: Mesmo os pais mais influentes tinham pouca autonomia para tomar decisões que envolviam seus próprios filhos. Eles não podiam trazer seus filhos para casa, não podiam ir visitá-los.

SK: Seria de se imaginar que exceções fossem frequentemente abertas [para os filhos da elite], mas isso simplesmente não acontecia. Eles não podiam ligar para casa, não havia qualquer forma de se comunicar com os pais. Literalmente, nenhuma exceção. Para nenhum poder ou agência.

Também me espantou o fato de eles não viajarem para outros lugares dentro do próprio país. Você poderia pensar que todos esses jovens de elite deveriam ao menos conhecer as famosas cadeias de montanhas [da Coreia do Norte], mas nenhum deles jamais esteve lá.

Esse poder absoluto é a razão para a Coreia do Norte ser o que é.

JS: Qual seria sua recomendação se pudesse criar políticas em relação à Coreia do Norte para os EUA e outros países?

SK: É uma situação que ninguém conseguiu ainda resolver. Não é um sistema que eles possam moderar. O Grande Líder não pode ser moderado, não pode ser menos divino. O sistema do Grande Líder precisa ser rompido.

É impossível, porém, imaginar como isso aconteceria. É uma perspectiva completamente desanimadora. As pessoas foram destituídas de todas as ferramentas que seriam necessárias para pensar de maneira independente: educação, informação, possibilidade de compartilhamento.

Uma intervenção [militar] não funcionaria porque o país é uma potência nuclear. Minha opinião é que precisa acontecer, de alguma forma, um fluxo, um derramamento de informações para dentro da Coreia do Norte. O problema é que a população é vítima de abuso por uma ideologia de culto. Mesmo que não haja mais o Grande Líder, alguma outra forma de ditadura virá substituí-lo.

Todos os caminhos levam à catástrofe, e é por isso que até os desertores do regime, quando fogem, frequentemente se tornam cristãos fundamentalistas. Eu queria poder sugerir alternativas, mas tudo leva a becos sem saída.

A única coisa que chegou a me dar um pouco de esperança foi o fato de Kim Jong-un ser mais imprudente que o líder anterior [seu pai, Kim Jong-il]. Mandar matar seu tio e seu irmão poucos anos depois de assumir o poder não cai bem para um sujeito que só está no poder por conta do sobrenome. Se é só a linhagem que o mantém naquela posição, ele não deveria se autossabotar matando membros da própria família.

JS: Em uma perspectiva histórica, normalmente seria de se esperar que a família real ficasse maluca demais, aparecesse algum neto muito lunático, e então os militares e o poderio econômico decidiriam que não precisavam mais daquele cara, iriam se livrar dele, e assumiriam o comando. Na Coreia do Norte, no entanto, isso parece impossível: essa família precisa estar no poder, os militares não podem dizer “ah, então, o país agora é comandado por um general qualquer”.

SK: A marca do Grande Líder, que eles construíram, é muito poderosa. É por isso que o assassinato de Kim Jong-nam [meio-irmão mais velho de Kim Jong-un e herdeiro original da dinastia Kim] foi uma decisão idiota. O que se demonstrou ali foi que a linhagem real pode ser assassinada, e isso abre uma brecha para essa alternativa porque há outras figuras da dinastia que podem ser colocadas no lugar. Ele não é único. Matar [Jong-nam] criou um precedente para que isso aconteça.


JS: Um detalhe que achei especialmente estarrecedor foi o sistema de parcerias entre os alunos. Todos tinham um parceiro com quem passavam bastante tempo, e de quem pareciam muito amigos – até que esse parceiro era substituído, e os dois nunca mais voltavam a andar juntos.

SK: O sistema de parceria existe apenas com um propósito de vigilância, não interessa que se trate de rapazes de 19 anos tentando fazer amigos. É essa a medida em que não se reconhece nem se respeita a humanidade de cada um. Há uma canção norte-coreana que compara cada cidadão com uma bala em uma imensa arma para o Grande Líder. Eles vivem assim.

JS: Também fiquei impressionado com a descrição que você faz da degeneração da linguagem na Coreia do Norte. [Kim escreveu: “Cada vez que eu visitava a RDPC, a República Democrática Popular da Coreia, sentia o impacto da degradação do idioma coreano. Os palavrões haviam sido incorporados não apenas às conversas e aos discursos, mas também à linguagem escrita. Estavam por toda parte: em poemas, jornais, discursos oficiais do Partido dos Trabalhadores e até em letras de música. Era como encontrar as palavras “porra” e “merda” num discurso presidencial ou na primeira página do New York Times.”]

SK: Sim, tenho a impressão de que a linguagem reflete a sociedade. O sistema é todo construído em cima de um risco de guerra iminente, e essa violência mudou o idioma coreano. Além disso, Kim Jong-un e sua turma são marginais, esse é o estilo deles, e esse estilo tomou o país inteiro.

JS: O mau gosto parece ser um problema comum aos ditadores de todo o mundo.

SK: É interessante analisar a Coreia do Norte em meio ao período atual dos EUA, porque é possível perceber muitas semelhanças. Basta olhar para as incessantes publicações de Trump no Twitter acusando todas as notícias de “fake news” e repetindo o quanto ele mesmo é incrível. É muito parecido com o que acontece na Coreia do Norte, um fluxo constante de propaganda política. Edifícios com slogans que parecem gritar, reiterando a mensagem de que os inimigos mentem o tempo todo. As frases de efeito, resumidas para caber em um tweet, são muito parecidas com os slogans da Coreia do Norte.

Esse país em que estamos hoje, onde não é mais possível discernir entre verdade e mentira, a começar do que vem de cima, tem o mesmo grande problema da Coreia do Norte. Os Estados Unidos deveriam prestar atenção, pois há uma lição a ser aprendida.

JS: Eu me senti mal depois de ler seu livro, e agora estou me sentindo ainda pior.

SK: Para ser sincera, eu me pergunto se existe um prazo em relação às tragédias – não para solucioná-las, mas para torná-las menos terríveis. Me parece que já é tarde demais no caso da Coreia do Norte. Quando você consegue eliminar qualquer traço de humanidade a esse nível, ao longo de três gerações… O horror se torna ainda maior quando transparece a humanidade dos norte-coreanos. É aí que nos damos conta do quanto a humanidade pode ser distorcida, manipulada e violada. É aí que nos deparamos com a total devastação do que está de fato em jogo.
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Essa entrevista foi editada por razões de tamanho e clareza.

Foto em destaque: Uma pintura exposta no Ministério das Ferrovias retrata um trem que certa vez transportou Kim Jong-il. Dizia-se que ele teria morrido num trem enquanto viajava incansavelmente para assegurar o bem-estar de seu povo. Exposição Kimjongilia, 2002.

Tradução: Deborah Leão

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Celso Amorim: servi com um estadista​ (Lula)

Por Celso Amorim

O fórum IBAS (Índia, Brasil e África do Sul)não somente abriu novos caminhos para a cooperação sul-sul como esteve na raiz da criação do BRICS, que se constituiu em importante fator de equilíbrio na ordem econômica internacional, até então dominada pelo G7 (grupo de economias mais ricas).

Celso Amorim discursando na Assembleia Geral da ONU

Foi com enorme honra que recebi, em dezembro de 2002, o convite do Presidente Lula para ser seu Ministro das Relações Exteriores. Diplomata de carreira, eu fora chanceler de Itamar Franco e havia representado o Brasil,em diversos governos, perante às Nações Unidas, em Nova Iorque, à Organização Mundial do Comércio e outras organizações internacionais em Genebra. Quando recebi o convite, era Embaixador do Brasil junto ao governo britânico. 

A opção do presidente recém-eleito por um funcionário de carreira já denotava sua visão sobre como deveria ser conduzida a política externa em seu governo, já que não faltavam, nos próprios quadros do Partido dos Trabalhadores, pessoas com qualificações e com amplo conhecimento e experiência na realidade internacional. Mais do que qualquer outra coisa – uma vez que jamais tivéramos contato direto – , o Presidente Lula quis significar, com essa opção, que a política externa do Brasil, sem deixar de ser sensível aos anseios populares que o levaram ao poder, seria, sobretudo, uma política de Estado.

Desde logo, percebi que havia grande sintonia em nossas visões. Ao falar à imprensa no momento em que minha indicação foi anunciada, limitei-me praticamente a dizer que a política externa seria levada adiante de forma “ativa e altiva”. Foi esse sentimento, de profundo respeito pela dignidade do país, ao lado da crença na capacidade do povo brasileiro de enfrentar desafios, que norteou nossas posições e iniciativas no cenário internacional. A auto-estima substituiu o inexplicável complexo de inferioridade, que, afora alguns momentos excepcionais, costumava marcar a nossa atuação diplomática.

Celso Amorim em palestra na Casa Portugal em 2016

Durante o governo Lula, o Brasil rejeitou acordos comerciais desvantajosos que se nos queriam impor; trabalhou intensamente pela integração sul-americana; fortaleceu as relações com os demais países da América Latina e Caribe; intensificou laços de amizade com a África e os países árabes e rompeu novos horizontes na formação de fóruns e blocos com as grandes nações emergentes. Sem hostilizar nossos parceiros do mundo desenvolvido (ao contrário, criamos uma “parceria estratégica” com a União Europeia e um “diálogo global”com os Estados Unidos), trabalhamos em favor de um mundo mais multipolar, no qual os interesses do Brasil e dos países em desenvolvimento como um todo pudessem ser afirmados e respeitados.

Durante as duas gestões do Presidente Lula, o Brasil liderou a criação de uma organização política sul-americana (a Unasul) e esteve à frente da iniciativa da CELAC – Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos. Pela primeira vez em duzentos anos de vida independente foi possível criar órgãos que representassem o conjunto da América do Sul, e da América Latina e Caribe, sem qualquer tipo de tutela externa. O fórum IBAS (Índia, Brasil e África do Sul)não somente abriu novos caminhos para a cooperação sul-sul como esteve na raiz da criação do BRICS, que se constituiu em importante fator de equilíbrio na ordem econômica internacional, até então dominada pelo G7 (grupo de economias mais ricas). O Presidente Lula esteve à frente, também, de importantes lutas para erradicar a fome e a pobreza no mundo e para facilitar o acesso de populações pobres a tratamentos de saúde. Sua liderança na reforma das regras do comércio e das finanças internacionais foi amplamente reconhecida, o que se espelhou sobretudo no G20, o grupo das maiores economias, que, para efeitos práticos, substituiu o G7 como principal foro internacional em temas econômico-financeiros.

Erdogan, Ahmadinejad e Lula ao lado de Amorim comemoram vitória no acordo Nuclear com o Irã

No plano da paz e da segurança, o Brasil foi chamado a participar de esforços em prol de uma solução pacífica no Oriente Médio, como ocorreu no caso da Conferência de Annapolis, em relação ao conflito Israel-Palestina (o Brasil foi um dos três únicos países em desenvolvimento não-predominantemente islâmicos a participar do encontro). Juntamente com a Turquia, estivemos, em 2010, no centro de uma importante iniciativa para solucionar o problema em torno do programa nuclear iraniano, que viria servir de inspiração ao acordo estabelecido entre as grandes potências e Teerã, em 2015.

Durante os oito anos em que servi diretamente sob as ordens do presidente Lula, pude testemunhar a admiração que ele inspirava nos estadistas das mais variadas partes do mundo. Não seria exagero dizer que, durante esses anos, o Brasil era um “farol” que apontava o caminho do desenvolvimento em direção a uma sociedade mais justa e democrática em um mundo política e economicamente mais equilibrado. Nesses anos, o respeito pelo Brasil atingiu níveis nunca antes alcançados e a figura do nosso presidente era reverenciada por todos, ricos ou pobres, poderosos ou fracos. 


Em vários momentos, principalmente nas longas viagens ao redor do mundo, participei de conversas reservadas, em que temas de política internacional se misturavam com os da situação interna no nosso país. Durante todos esses momentos, jamais presenciei, da parte do Presidente Lula, gesto ou palavra que não fosse indicativa de sua absoluta integridade moral e dedicação aos objetivos maiores do povo brasileiro. 

Recordo-me de uma primeira viagem pelo interior do Nordeste, em que Lula fez questão de mostrar aos seus ministros (a maioria dos quais oriundos de partes mais bem aquinhoadas do país) a verdadeira realidade brasileira. Constatei, com misto de surpresa e espanto,não só a afeição mas também a confiança que o povo pobre do Brasil depositava no líder que acabara de assumir. Há poucas semanas, acompanhei novamente Lula em um trecho de sua “caravana” àquela região e pude constatar que a mesma relação de confiança se preservou. Melhor: foi reforçada pelos avanços sociais que seu governo trouxe. É, pois, com grande tristeza, que vejo as tentativas daqueles que sempre defenderam privilégios de classe e atitudes de dependência em relação a potências estrangeiras de desconstruir a imagem e a obra daquele que foi, sem dúvida, o maior líder popular que o Brasil já teve.

Lula nos braços do povo

Como tantos brasileiros, confio que a justiça, afinal, prevalecerá e que Lula poderá seguir conduzindo o Brasil no rumo de uma sociedade menos desigual e de uma posição de respeito, independência e dignidade no plano internacional. 

Brasília, 7 de setembro de 2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

As 10 maiores ilegalidades da Lava Jato

Por Anderson Bezerra Lopes

O advogado Anderson Bezerra explica quais são as 10 maiores ilegalidades da Lava Jato.  Essas ilegalidades serão apresentadas e detalhadas uma por vez em um vídeo entrevista. 

Bezerra Lopes é advogado. Mestre em Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Universidade de Coimbra em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (2008). Graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2007). Membro do Conselho Editorial do Boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Membro da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP). Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB).

ILEGALIDADE #4: A VIOLAÇÃO DAS PRERROGATIVAS DOS ADVOGADOS



ILEGALIDADE #3: A DENÚNCIA ANÔNIMA



ILEGALIDADE #2: USURPAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO STF




ILEGALIDADE #1: A INCOMPETÊNCIA JURISDICIONAL




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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Frente Pela Soberania Nacional envia carta aos embaixadores e investidores


O senador Roberto Requião, lê carta aberta redigida e enviada pela Frente Parlamentar pela Soberania Nacional, presida por ele, aos embaixadores e os investidores, alertando sobre os riscos da compra do patrimônio público por um governo não legítimo.

A venda de patrimõnio púbico sem a chancela do povo brasileiro será considerada ilegal e portanto criminosa, qualificando desta forma, o comprador oportunista como um receptador.

O preço pode ser muito vantajoso, mas os riscos são muito altos, alerta o senador.









terça-feira, 29 de agosto de 2017

DEPOIS DE UMA REDUÇÃO DE 82%, DESMATAMENTO VOLTA A SUBIR FORTE

Por Paulo Franco

Está muito difícil identificar em qual área o retrocesso é maior, neste governo.  O sonho do desmatamento zero, partilhado por muitos ambientalista, simplesmente acabou.  Pelo menos num futuro próximo.

Temos visto violentos retrocesso no plano social, no plano econômico e, como não poderia deixar de ser, no plano ambiental.

O gabinete desse governo é constituído de ministros que são contrários aos objetivos das próprias pastas que ocupam.  Um ministro do trabalho que é contra o trabalhador.  Um ministro da saúde que é contra a saúde pública. Um ministro da Fazenda que é contra uma política econômica que atenda à sociedade.  Um ministro do Ambiente que é contra a preservação do meio ambiente.  E vai por aí, afora.

GRÁFICO I


No gráfico I a seguir vemos a evolução do desmatamento no Brasil nos últimos anos. No ano de 1994 o desmatamento chegou a 15 mil km².  10 anos depois, em 2004, o desmatamento subiu para 28 mil km².

O gráfico II mostra o crescimento em valores absolutos (km²), que foi de 13 mil km² de 1994 para 2004, o que representou um crescimento espantoso de 86% (gráfico III), revelando uma total falta de compromisso com a questão ambiental.

Com uma política mais agressiva de preservação ambiental de forma ampla, incluindo um severo combate ao desmatamento, no período de 2004 a 2014 o Brasil conseguiu trazer o desmatamento na Amazonia de 28 mil km² para 5 mil km², em bases anuais,  conforme mostra o gráfico I. 

GRÁFICO II


A evolução dos dados desses período mostrou uma redução de 23 mil km² de desmatamento em base anual (gráfico II).  Essa redução representou uma variação percentual de -82% (gráfico III).

Com esse desempenho, o Brasil passou a ser elogiado pelas organizações internacional preocupadas com o problema ambiental, principalmente o climático, incluindo a ONU.

Esse desempenho significativo despertou a esperança concreta de se chegar ao "desmatamento zero", sendo comemorados por ambientalistas do Brasil e do mundo todo.

GRÁFICO III


A partir de 2015 a situação mudou radicalmente.  O desmatamento na Amazônia, não só parou de cair, como também passou a crescer aceleradamente.  Dos 5 mil km² ocorridos em 2014, subiu para 8 mil km² em 2016 (gráfico I). E não há nada que demonstre uma trajetória que não seja acelerada de 2017 em diante.

Esse crescimento vertiginoso de 3 mil km² (gráfico II) representa uma variação percentual de 59% em apenas 2 anos.   Se a sociedade não reagir com veemência, esse descaso com o meio ambiente poderá elevar o desmatamento a níveis extremamente altos, comprometendo ou até anulando toda a política adotada com sucesso, nos últimos anos.

domingo, 6 de agosto de 2017

MATHEUS NATCHERGAELE: brasil pós-golpe, "o futuro será passado, mesmo"

Por Matheus Nachtergaele



Eu achei, sim, que se ia investigar o tal Temer. A política venceu o bom senso. 

Uma presidente foi caçada, um país desmontado novamente, mais uma geração condenada à miséria de tudo por causa de um negócio que não saberemos qual é, posto que a nós resta pagar em silêncio os impostos para a manutenção dessa babel que é Brasilia. 


Para nós não haverá escola, hospital ou transporte decente. Não haverá penicilina, nem água limpa. As chuvas inundarão pra sempre as ruas sujas e sem esgoto, e as crianças nossas serão marginais, criadas no país do desamor, da cocaína, das igrejas evangélicas, do futebol a todo custo. 


Teremos sido o país castrado da festa, e transformado em campo de guerra e feiúra. Não haverá, por muito tempo ainda, nenhuma alegria que não seja conquistada apenas por nós mesmos, nas reuniões singelas da dança e da festa. 

Teremos tido a melhor música do mundo, as mais lindas aves, as praias e a vasta fartura engolidas numa corrupção des-humanista e doente. Teremos sido o país do futebol...grande bobagem. 

De minha parte, vou seguir fazendo filmes, peças e séries de televisão que me pareçam investigadoras do homem do brasil ( com minúscula mesmo, porque estou triste ), do que poderia ter sido uma brasilidade, e serei um dos arautos sinceros do que é bonito e feio em nós. Farei isso até a exaustão de mim. É o que sei fazer como artesanato. 

Nas horas mansas, vou cantarolar um samba canção de arte e meus olhos vão se encher de água impura. Aos poucos, o que era o futuro será o passado, mesmo. Tendo sobrevivido a isso tudo, morrerei sem ter visto o país que ia inventar o novo. Tudo é um negócio. Sorte pra nós. Beijo.

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FONTE: Facebook

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Gro Harlem: "Em meu país, as pessoas confiam nos políticos".

Gro Harlem Brundland, diplomata norueguesa fala sobre a relação entre políticos e cidadãos.



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FONTE: Fronteiras do Pensamento

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Venezuela sem fake news

Por Natalia Viana e Fotos de Manuel Rueda


Esqueça muito do que você leu por aí: não há catástrofe humanitária nem Maduro está para cair; mas há manifestantes quase todos os dias nas ruas, e eles não são “terroristas”, como dizem os apoiadores do governo




Na segunda-feira, 5 de junho, a Venezuela amanheceu com o mesmo presidente, Nicolas Maduro, como vem acontecendo desde que ele sucedeu Hugo Chávez, em 2013. Mais uma decepção para muitos dos manifestantes que têm lotado as ruas de diversas cidades do país nos últimos dois meses. Corriam boatos, de alcance multiplicado por correntes de WhatsApp, de que Maduro iria fugir do país no dia anterior. Até uma conhecida vidente previra sua fuga, dizia uma das mensagens. Era dito e certo.

Assim como nesse episódio, tudo o que acontece na Venezuela é cercado de desinformação e enevoado pelas fake news espalhadas por apoiadores do governo e da oposição. Na política venezuelana, tudo é espetáculo. Por isso, esqueça muito do que você leu por aí: a Venezuela não está vivendo uma catástrofe humanitária pela falta generalizada de alimentos; o governo de Nicolás Maduro não vai cair amanhã; a polícia nacional não está massacrando manifestantes a rodo nas ruas. Mas também não é verdade que tudo está bem e que as manifestações e a violência em torno delas são fruto de “terroristas” armados, como dizem os apoiadores do governo.

Nossa reportagem passou três semanas no país para ouvir o que dizem os venezuelanos e seus líderes. Logo no primeiro dia, já caímos numa marcha da oposição na zona leste de Caracas. Desde o começo de abril, elas têm sacudido a capital: a cada dois dias há um novo protesto massivo, e as ruas amanhecem como um cenário de guerra. Em todas as principais avenidas, há caminhões antidistúrbios ao lado de uma fileira de guardas da Polícia Nacional Bolivariana portando armas longas. Soldados do Exército com seus uniformes verde-oliva também ocupam esquinas e locais-chave para intimidar aqueles que vão protestar. Boa parte das principais avenidas de rápido acesso aos locais de encontro das marchas é interditada pelas forças do governo, impedindo o fluxo de manifestantes. As estações do metrô fecham. Algumas empresas liberam seus funcionários em horários alternativos para evitar o caos.

As marchas também têm a sua rotina: ali na Plaza Altamira, do bairro de classe média de mesmo nome, senhores e senhoras loiras com o característico boné com as cores da Venezuela conversam enquanto estudantes de diversas universidades, como a Universidade Central de Caracas, Universidade Metropolitana e a Universidade Santa María, trazem faixas e cartazes com os nomes das suas escolas e palavras de ordem contra o governo, para eles uma ditadura. Aos poucos, grupos de jovenzinhos, morenos, brancos, negros, começam e se organizar em rodas. Vão tirando das mochilas as suas “armas de guerra”: capacetes de moto, camisas negras que enrolam sobre o rosto, máscaras antigás, luvas grossas, escudos cuidadosamente talhados de madeira, enfeitados com palavras como “Coragem”, “Liberdade” e “Honra”. Os “black blocs” venezuelanos pedem que não sejam fotografados. Como os brasileiros, são muito jovens, entre 16 e 25 anos, e encontram nas marchas uma maneira de manifestar o desejo de mudança em seu país. Ali eles não quebram bancos nem lojas. Levam pedras e devolvem, quando podem, com suas luvas grossas, as bombas de gás lacrimogêneo atiradas pelas fileiras policiais; alguns atiram coquetéis molotov, ou explosivos caseiros. E são saudados como heróis pela oposição.

Nos protestos em Caracas, jovens utilizam máscaras antigás e enrolam camisas em seus rostos para se proteger

Quando a praça já está lotada, eles passam em fila indiana, o braço sobre os ombros do anterior, em direção à linha de frente, sob fortes aplausos. Algumas senhoras pedem para tirar fotos com eles. “São tão corajosos!”, exclama uma. Seu papel, ali, é tentar “empurrar” o cordão policial que invariavelmente interrompe a marcha quando ela se aproxima do centro da cidade, impedindo que os manifestantes penetrem na zona onde estão os prédios governamentais. “Não há um paro (greve) nacional na Venezuela. Há uns protestos, e esses protestos estão focalizados em guetos onde o governo deixa que protestem”, resume o diretor do Instituto Datanálisis, Luis Vicente León.
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Nada disso é novidade na Venezuela; o chamado para “calle calle calle” (rua, rua, rua) tem sido repetido por diferentes líderes da oposição, com menor ou maior veemência, desde que Hugo Chávez foi eleito presidente em 1998. As ondas de protesto, boicote, lockouts são tantas que se perde a conta. Muitas delas tiveram apoio dos Estados Unidos, através de financiamentos da Agência Americana para Cooperação Internacional, a Usaid (saiba mais aqui e aqui). Desde a morte de Hugo Chávez em 2012, houve pelo menos três grandes ondas de protestos, seguindo sempre o mesmo roteiro. E, mesmo assim, quando se conversa com os manifestantes, eles garantem que desta vez será diferente. “Vamos seguir nas ruas, é todo um país que não quer continuar com esse regime”, diz Alejandro Ferrero, de 23 anos, sob um capacete com as cores da bandeira. Desde abril, mais de 2800 manifestantes foram detidos. Mais de 200 permanecem presos.

Uma Assembleia em desacato e uma Constituinte sem voto popular

O motivo para a mais recente onda de protestos está num prédio branco no centro de Caracas, enfeitado com colunas romanas e uma fonte de água no luxuoso pátio, onde funciona a Assembleia Nacional – ou deveria funcionar. Em meados de maio de 2017, as sessões ocorriam no máximo a cada semana, reunindo um punhado de deputados da oposição; os deputados do governo nem davam as caras. Em agosto do ano passado, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) declarou a Assembleia em “desacato”, e desde então ninguém sabe direito como tirá-la daí.

Um destino melancólico, mas muito venezuelano, para uma Assembleia cuja eleição, em dezembro de 2015, significou a primeira derrota eleitoral do chavismo no Legislativo, controlado durante 16 anos pelo governo. Partidos da oposição que fazem parte da Mesa de Unidad Democrática (MUD) conquistaram a maioria de dois terços das cadeiras, podendo fazer leis que contrariam as principais políticas do Executivo, além de aprovar ou desaprovar empréstimos internacionais e rechaçar o orçamento federal. Um feito histórico, vastamente celebrado nas ruas, nos cafés elegantes, nas empresas e nas correntes de WhatsApp. Já na cerimônia de posse, o presidente eleito da assembleia, Henry Ramos Allup, promulgou uma lei de anistia a todos os presos políticos e prometeu: “Em um período de seis meses, vamos propor um método, um sistema para mudar o governo por vias constitucionais”. Horas antes, o presidente Nicolás Maduro emitira um decreto retirando da Assembleia o poder de nomear a diretoria do Banco Central, e o TSJ havia impedido três deputados da oposição de tomar posse – para que ela não conquistasse a maioria. A MUD não acatou a ordem judicial; desde então, o governo não paga salários aos deputados, e todos os atos do Legislativo são anulados pelo TSJ – que chegou, em 29 de março, a decidir que assumiria os poderes do Congresso, mas capitulou depois diante da grita internacional.

“A Assembleia funciona no sentido testemunhal, funcionam reuniões, se fazem debates, mas todas as leis que aprovamos foram anuladas. São mais de 60 decisões da Sala Constitucional anulando todos os atos”, explica em entrevista à Pública o atual presidente da casa, Julio Borges. Ainda mais beligerante que o seu predecessor, Borges assumiu em janeiro prometendo eleições gerais ainda este ano. Em março, anunciou que o Legislativo declarava o “o abandono do cargo” do presidente Nicolás Maduro, pela ineficiência do governo em lidar com uma aguda crise econômica que gera crises de falta de medicamentos e alimentos e uma inflação que supera os 500% ao ano. Mas ninguém deu muita bola.

“É um absurdo pretender que toda a instituição esteja em desacato, como se fosse uma pessoa”, diz Borges. “Maduro aprovou o orçamento sozinho, no Tribunal Supremo de Justiça. Aprovou a dívida federal sozinho, sem passar pelo Parlamento. De maneira que temos um Parlamento fechado por um governo a quem não importam nem o voto popular nem a democracia.”

Manifestantes com escudos talhados em madeira

A guerra entre os dois poderes acirrou-se ao longo de 2016. Uma tentativa de diálogo, acompanhada pelo papa Francisco e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), no final do ano, também foi por água abaixo. “Nicolás Maduro está governando fora da Constituição. E o país se rebelou diante de um governo que está instalando uma ditadura na Venezuela”, diz Borges. Ele se refere a uma enxurrada de “jeitinhos” aos quais o governo apelou para postergar os votos nas urnas, depois da acachapante derrota eleitoral no Legislativo em 2015. O referendo revogatório para o mandato do presidente – proposto pelos partidos de oposição – foi interrompido quando o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) suspendeu a coleta de assinaturas por fraude em cinco estados no fim de outubro. Na mesma semana, o CNE anunciou que as eleições para governadores, que poderiam dar maioria das cadeiras a opositores – e com elas o controle de diversas polícias estaduais –, seriam realizadas até o fim do primeiro semestre de 2017, com seis meses de atraso. Não ocorreram até hoje.

Antes de se despedir de Borges, a reportagem pergunta o que pode acontecer se o governo não realizar eleições gerais, como pede a oposição. “Nada. Vamos seguir lutando, porque não tem outro jeito.”

Os olhos de Chávez

No centro da cidade, os olhos do falecido líder Hugo Chávez estão por toda parte. Literalmente. Pintados sobre as paredes de prédios governamentais, adornando muros, esparramados sobre os degraus do parque El Calvario, trazendo – de forma um tanto sinistra – a lembrança constante de que a Venezuela é “território do chavismo”, como muitas pichações teimam em lembrar. É também sob os olhos de diversos retratos de Chávez que o Elías Jaua despacha no seu gabinete no Ministério da Educação. Homem de confiança de Chávez, ele já foi secretário da Presidência, chanceler, ministro da Economia Popular, ministro da Agricultura e Terras e vice-presidente. Agora, além da pasta da Educação, Jaua comanda o principal esforço do governo para se livrar do impasse criado pela oposição, que segue firme nas ruas: a criação de uma Assembleia Constituinte, proposta por Nicolás Maduro no último 1o de maio. As eleições dos 500 membros estão fixadas para o dia 20 de julho. Antes uma bandeira da oposição, ciosa de encurtar o governo chavista, a Assembleia proposta é para lá de controversa. Se levada adiante e empossada, a Constituinte suplantará todos os demais poderes – e, portanto, pode comandar, ou extinguir, a rebelde Assembleia Nacional. O governo promete um referendo popular apenas no fim do processo.

Moreno, com um olhar sério sob os óculos quadrados, Jaua explica, enfático, que o maior problema do país é a “injustificável negativa da oposição a se sentar e dialogar com o governo e a sua opção pela violência”. “Eles desconhecem o direito de governar dessa força popular que levantou a bandeira dos indígenas, camponeses, pescadores, afrodescendentes, os excluídos de toda sorte. E não é novo. São 18 anos de desconhecimento”, diz.

Como chavista histórico que é, Jaua foi encarregado de coordenar o esforço constituinte, uma aposta arriscada de modificar um dos maiores legados de Hugo Chávez, a Constituição de 1999, que, apesar de contestada na época, hoje está na boca de qualquer político: todos se acusam mutuamente de estar violando a Constituição. É a resposta do ministro, por exemplo, quando indagado se não seria mais fácil abrir o diálogo realizando as eleições gerais. “Não está na Constituição a figura das eleições gerais. Isso seria o fim das instituições, se um grupo que usa a violência pudesse mudar as regras do jogo.” É tanto o apreço pela Carta Magna que Jaua parece se contradizer ao explicar a necessidade de uma Constituinte.

O ministro da Educação Elías Jaua, homem de confiança do ex-presidente Hugo Chávez

"Não se trata de mudar a Constituição”, ele explica à Pública. “Trata-se de apelar ao princípio de que a soberania popular é a fonte suprema do destino da nação, já não com a cúpula da oposição, mas com um processo eleitoral por via universal, direta e secreta. E que emerjam tanto lideranças do governo como lideranças da oposição que estão contra essa violência.”

A fórmula para eleger os constituintes é para lá de controversa. Metade será eleita por regiões; a outra metade, de acordo com nove setores, como camponeses, empresários, indígenas, pessoas com deficiência, universitários e representantes de conselhos comunais, que cuidam da manutenção nas favelas, por exemplo. Cada setor terá seus representantes. Sobre aqueles que ficarão de fora – como jovens que não estão na universidade –, Jaua justifica que todos poderão votar pela sua região. “A única razão é técnica e legal. Tem de haver um registro histórico, reconhecido, institucional dos setores. Não se trata de discriminação, mas o registro tem de ser confiável e certificado”, enfatiza.

Mas como o governo sabe que a população aprova a iniciativa, se não há um referendo consultivo? Ele responde com confiança: “Isso se expressará nas eleições dos constituintes, e se verá nas próximas semanas, em milhares de candidaturas que já começam a florescer por todos os lados”. Até meados de junho, já eram mais de 50 mil os candidatos, segundo fontes oficiais. Sejam quais forem as mudanças que surgirem após uma Constituinte eleita dessa maneira, ele garante: “As bases doutrinárias e filosóficas da Constituição de 1999 se manterão”.

Mais protestos e os mortos 

A proposta governista incendiou o ambiente político como gasolina no fogo. A comoção é quase palpável quando, no dia 11 de maio, uma passeata enche as ruas de Las Mercedes, na zona leste de Caracas. O protesto, marcado em menos de 24 horas, era a antítese da marcha do dia anterior, onde naquele mesmo lugar uma multidão tentava entrar no centro da cidade, impedida pelo cordão policial, bomba, choque e, por fim, pela tragédia. Hoje, conduzidas por um padre católico, as famílias rezam, cantam e trazem coroas de flores para o jovem Miguel Fernando Castillo Bracho, de 27 anos, um estudante de comunicação da Universidade Santa María, morto, segundo o Ministério Público, por uma esfera metálica atirada por uma arma caseira nas manifestações do dia anterior. “Estou aqui como mãe para compartilhar a dor das mães desses jovens assassinados. Chega de tanta repressão e tanta maldade que tem esse governo. Qual é o medo que a gente chegue ao palácio de Miraflores?”, dizia a professora Ana Karina Malave.

“Luto por algo que não conheço: uma Venezuela diferente”, diz cartaz empunhado por manifestante contrário ao governo

Foram mais de 70 mortes relacionadas à onda de protestos na Venezuela desde março. A contagem das mortes – uma perversidade do sensacionalismo venezuelano – entra na conta política dos dois lados em disputa. Em Caracas, uma das cidades mais violentas do mundo, as mortes têm marcado todas as ondas de protestos contra o chavismo. Em 2014, as 43 mortes de manifestantes serviram para a Justiça condenar o líder Leopoldo López, do partido Primeira Justiça, a 14 anos de prisão; desde então, ele virou o mais famoso preso político do país. Em 2002, as 19 mortes durante uma jornada de protestos em 11 de abril serviram de pretexto para a cúpula militar exigir a renúncia de Hugo Chávez, abrindo caminho para o golpe de Estado que duraria menos que 48 horas.

É por isso que, ao entrar em um escritório do ministro da Comunicação em meados de maio, a reportagem da Pública encontra Ernesto Villegas sobre uma pilha de papéis impressos, organizados no chão ao pé de uma lousa branca, com uma lista de nomes. Cada papel traz com uma foto, um nome e sobrenome e dados como idade, sexo e “status do caso”. Ernesto Villegas é ministro da Comunicação e presidente da cadeia estatal venezuelana de televisão. É, antes de tudo, diz ele, jornalista. “Isso ninguém pode me tirar.” Depois do golpe de 2002, Ernesto estudou os mortos de 11 de abril para seu livro Abril, golpe adentro.

“Veja, todas as mortes valem o mesmo, sejam chavistas ou da oposição”, diz ele, garantindo que, hoje como na época do golpe, o número de mortos pela polícia nacional é muito menor do que o alardeado. Até o começo de junho, entre os 77 casos registrados pela sua equipe, apenas 25 pessoas estavam de fato participando de manifestações quando faleceram. Entre elas há vítimas que receberam impactos de armas caseiras ou por armas de fogo. Um estudante de medicina, Paúl Moreno, 24 anos, foi atropelado por uma caminhonete Hilux em Maracaibo, no oeste do país, e outro jovem universitário, Juan Pernalete, de 20 anos, morreu após o impacto de uma bomba lacrimogênea atirada pela polícia no seu tórax, segundo a procuradora-geral, Luisa Ortega Díaz. Entre os mortos há também quatro chavistas, quatro policiais e oito vítimas que morreram eletrocutadas em meio a um saque em uma padaria em Caracas (baixe aqui e aqui no levantamento).

“Aqui o pretexto para a intervenção estrangeira são as violações de direitos humanos. Por isso, os esforços de um aparato midiático gigantesco estão postos para essa narrativa do governo de Maduro como violador massivo de direitos”, avalia o ministro. Para ele, se um policial atira nos manifestantes, está desobedecendo à Constituição, às ordens expressas de seus superiores e do presidente. “E para mim é suspeito de estar alinhado ao show de Luis Almagro na Venezuela”, diz referindo-se ao secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que age em concordância com a política dos Estados Unidos.

A mais brutal de todas as mortes foi a de um jovem de 21 anos, Orlando Figuera, linchado, esfaqueado e queimado vivo por manifestantes que ocupavam a praça Altamira no dia 20 de maio, após ter sido acusado de tentar roubar uma pessoa. Ele morreu no hospital 15 dias depois. Segundo os pais, chavistas ferrenhos, ele era guardador de carros em Las Mercedes e “foi morto por ser chavista”. A notícia horrenda recebeu pouquíssima atenção da imprensa internacional e foi usada pelo governo para atacar a oposição. “Aqui a imprensa internacional não segue seu manual de estilo. Se desqualifica a fonte oficial como válida. Há a visão de que qualquer coisa que se diga contra o governo é válida como notícia, não é necessário verificar.”

Entre 2002 e hoje ele aponta uma diferença fundamental: a primazia das redes sociais. A internet tem a penetração de 53% na Venezuela, com mais de 70% referente às classes mais baixas. “Naquela época éramos reféns da TV”, diz Ernesto. “Hoje a comunicação digital substituiu a televisão em algumas franjas geográficas e etárias. Tem muito impacto o que circula em grupos de WhatsApp; o Facebook é a rede mais popular na Venezuela, e o Twitter é usado por políticos.”

Enquanto marchas como a de Miguel não são mencionadas pela TV aberta – a Telesur e a VTV, em especial, dedicam longas horas a programas propagandísticos recheados de acusações contra os opositores –, é impossível controlar a torrente de vídeos caseiros, que repercutem em sites antichavistas, como Maduradas.com ou La Patilla. Há vídeos que mostram jovens sendo linchados pelos manifestantes, outros mostram a Polícia Nacional Bolivariana quebrando e queimando as próprias motos para incriminar manifestantes, como este.

O ministro diz que existe uma mistura entre meios de comunicação digitais e outros, que “são fachadas de um aparato político com expressão digital”. “São sites que corroboram um ao outro, ajudam a espalhar notícias exageradas ou falsas, e até a propagar um valor inflacionado do dólar paralelo”, diz ele, citando o site dolartoday, capitaneado por um ex-militar venezuelano treinado pelos EUA e envolvido no golpe contra Chávez em 2002, que mistura cotações que sobem num ritmo vertiginoso com quaisquer informações que sejam publicadas contra o governo chavista.

“E há outro fenômeno: Miami está aqui. Boa parte dos conteúdos que se produzem na Venezuela é fabricada em Miami. Se você faz um mapeamento de influenciadores, algo como 60% não está na Venezuela.”

O contra-ataque chavista não fica atrás e é propagado por sites como La Iguana TV. Por um lado, divulgam vídeos como este aqui, que mostram manifestantes atirando bombas caseiras na polícia. Mas também chegam a extremos de manipulação, como a inserção de armas em fotos de manifestantes – imagens que depois se filtram para as TVs públicas.

À esquerda, a imagem original (EFE/Miguel Gutiérrez); à direita, a foto manipulada, em que armas foram inseridas nas mãos dos manifestantes

A sombra de 2002 

Em uma manhã de maio, enfiado em um moletom, Henrique Capriles parece animado como quem acaba de fazer um jogging. Principal rosto da oposição há mais de uma década, ele diz estar seguro de que, sem resolver a crise política, não há como resolver a crise econômica. E, conversando com ele, parece difícil resolver a crise política. Derrotado por apenas 224 mil votos por Nicolás Maduro em 2013, Capriles, o candidato que une a oposição, está proibido de concorrer a eleições durante 15 anos desde o último 7 de abril. “Segundo a Constituição, a única forma de ser inabilitado é você ter um julgamento definitivo. Eu fui notificado de inabilitação por causa de uma multa de 40 mil bolívares (cerca de US$ 6 dólares na cotação paralela), por haver recebido uma doação do Reino Unido para um projeto escolar”, diz. Dois dias depois da entrevista com a Pública, Capriles, que é governador do estado de Miranda, teve seu passaporte confiscado no aeroporto, o que o impediu de sair do país. Ele pretendia ir à ONU denunciar violações de direitos humanos. Capriles comenta o que considera uma perseguição: “Se fôssemos a eleições no próximo fim de semana, o governo sabe que o próximo presidente seria este que está falando com você”.

Para o político, o caos pode se aprofundar. Se a Constituinte avançar, diz, o país pode terminar com duas Constituições. “O governo radicalizou sua posição, um governo que está cada vez mais sozinho e mais isolado, e isso não é sustentável com o tempo”, diz.

A solução, para ele, é a tal calle calle calle. “Maduro desconheceu o resultado que o povo venezuelano deu nas urnas, uma maioria contundente pela mudança. O que propusemos: referendo revogatório, previsto na Constituição. O que aconteceu? Roubaram-nos. O que fazemos quando nos fecham todas as portas democráticas? Que faço eu, como líder?”

Em público, Capriles é outro homem. Leva a multidão ao delírio discursando durante os protestos, xingando o presidente – “o maior ‘boceta de mãe’ que existe neste país” – e garantindo que o governo vai cair logo, logo. No seu escritório, parece mais sensato e bem mais conciliador. Fala com muita veemência sobre uma saída eleitoral, pela pressão das ruas. “Eu estou convencido de que a mudança tem de se dar por via eleitoral. Porque temos de pensar no dia seguinte de Maduro. Um governo que caia, que termine, que venha de uma insurreição militar, um golpe de Estado, não vai dar estabilidade à Venezuela”, diz.

Manifestantes reunidos na Plaza Altamira – alguns utilizam adereços com as cores da Venezuela

Capriles acompanhou de perto o golpe fracassado de 2002, embora insista em se afastar da herança maldita. Em 11 de abril de 2002, horas antes de Chávez ser levado preso por militares rebelados, o presidente do seu partido, Primeira Justiça – Julio Borges, atual presidente da Assembleia –, exigia pela TV a renúncia do governo e dos demais poderes (aqui o vídeo). Ao seu lado esquerdo estava o jovem Leopoldo López, prefeito de Chacao, um município da Grande Caracas. No dia seguinte, López levaria a polícia municipal para prender o ministro do Interior e Justiça, Rodríguez Chacín, parte de uma “purga” que teve duração tão curta quanto o golpe. Ao invadir a casa onde estava o ministro, era acompanhado por Henrique Capriles, então um jovem prefeito de Baruta, também na capital, e das forças policiais de ambos os municípios.

Naquele mesmo dia, Capriles protagonizou ainda um infame episódio na embaixada cubana. A casa estava cercada desde o dia 9 por uma turba que ameaçava invadi-la, e haviam cortado a luz e a água desde que passaram a circular notícias de que o vice-presidente de Chávez, o tenente do Exército Diosdado Cabello, buscava asilo ali. Capriles entrou no local garantindo a segurança da embaixada e pediu para revistá-la; o embaixador se negou e invocou o direito internacional para exigir respeito ao território soberano da embaixada. Na saída, Capriles lavou as mãos: “Não posso confirmar nem desmentir que ele está na embaixada, pois não me deixaram revistar” (vídeo). Capriles diz que foi até lá a pedido do embaixador e que tudo não passou de uma armadilha, na qual caiu por “inexperiência”. “Eu nunca estive no golpe. Nunca!”, repete durante a entrevista.

Diosdado Cabello, o ex-vice-presidente que ele buscava na embaixada cubana, é hoje o homem mais forte do chavismo

Sentado sobre baionetas 

Todas as quartas-feiras às 20 horas, o canal estatal VTV recebe um colorido programa de auditório que dura umas quatro horas a fio. Logo na abertura, uma orquestra toca o refrão: “Soy chavista y voy marchando, por la vida celebrando… Y com el mazo dando!”. É a hora do programa semanal de Diosdado Cabello, vice-presidente do PSUV, o mais fiel seguidor do estilo do “comandante” falecido. O programa Com el Mazo Dando foi batizado por uma clava que o apresentador mantém sobre uma mesa, com a qual ele bate quando quer reforçar o que diz. Gordinho, o ex-militar aparece diante de um grande letreiro que forma a sigla 4F – o símbolo do golpe de Estado fracassado tentado por Chávez em 1992, do qual participou Diosdado na condição de tenente do Exército – e a frase “#Aqui não se fala mal de Chávez”.

No último programa, gravado dentro do Forte Tiúna, instalação militar histórica da capital, o apresentador e político começou fazendo um reconhecimento especial à Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e à Polícia Nacional Bolivariana. As dezenas de militares que sempre estão presentes na plateia responderam com um longo coro. “A direita está montando falsos positivos todos os dias para vocês. Mas nós prometemos: não passarão e não voltarão nunca mais a governar esta pátria de Bolívar e de Chávez!” – disse, dando um beijinho nas pontas dos dedos como compromisso. Antes de passar pela tradicional gozação das notícias da semana que “atacam a Venezuela”, rabiscando um X sobre elas, ele grita para a plateia:

– Hashtag oposição terrorista e…

– Assassina! – responde o público.

Diosdado é peça-chave de um governo que cada vez mais apela ao componente militar. Foi, além de vice-presidente durante o golpe, presidente da Assembleia Nacional, ministro de Obras Públicas e Vivienda e governador do estado de Miranda, título que perdeu para Capriles. Hoje, sem cargo no governo e com o posto inútil de deputado federal em uma Assembleia que não funciona, é um dos garotos-propaganda do governo perante a população.

“Ele é o político neste momento que conhece melhor as Forças Armadas. Ele tem proximidade e domínio sobre toda a promoção do Exército”, explica Rocío San Miguel, diretora da ONG Control Ciudadano para la Seguridad, la Defensa y la Fuerza Armada. “Creio também que Cabello joga um pouco ao vender essa imagem, de fazer crer que controla as Forças Armadas, o que é falso. Nenhum homem ou mulher na Venezuela as controla neste momento. Nem sequer o presidente da República.”

É justamente essa a aposta da oposição, que desde o começo do ano tem apelado para que os militares abandonem o apoio a Maduro. “Hoje é um governo sentado sobre as baionetas. Mas nas Forças Armadas esperamos que haja uma reserva democrática institucional, e que não vão acompanhar um governo que está corrompido”, diz Julio Borges à Pública. “É a isto que estamos apelando: que não tenham medo do voto, que não tenham medo de que possamos ir a um processo de eleição na Venezuela, e que possamos unificar o país. Uma mudança na Venezuela não significa perseguição, não significa caçada às bruxas, não significa vingança.”

O foco em seduzir os militares virou até mesmo projeto da Assembleia Nacional. No fim de maio, foi instaurada uma “Comissão de Garantias para a transição”, para fazer leis de anistia para quem mudar de lado. “Não somente anistia, mas também incentivos”, diz o deputado Freddy Guevara, vice-presidente da Assembleia Nacional e do partido Voluntad Popular, liderado por Leopoldo López. “Se alguém é preso ou despedido do seu trabalho por apoiar a luta pela democracia, que saiba que, mesmo que a ditadura o amedronte, no momento em que chegar a democracia, vai ter a recompensa.”

O opositor Julio Borges, presidente da Assembleia Legislativa, pede que as Forças Armadas retirem seu apoio ao governo de Nicolás Maduro

A mensagem busca assegurar que não se repetirá a caçada de 12 de abril de 2002, ocasião em que a perseguição teve a participação dos principais líderes oposicionistas de hoje. Desde então, o governo chavista reformou a polícia e sedimentou a doutrina bolivariana no Exército nacional, assegurando o mando a militares leais.

“Chávez introduz os militares no poder como fórmula de governo, mas sem dúvida, depois da sua morte, se formou uma coabitação muito maior entre políticos e militares, pelas concessões de poder que Maduro fez aos militares. É um governo militarista. Mesmo que seja governado por um civil, tem todas as características de um governo militar. A militarização da sociedade, todos os elementos diários do cotidiano estão dirigidos pelas Forças Armadas Nacionais: os alimentos, a circulação, os metrôs, as farmácias”, explica Rocío.

Entre os 32 ministros de Maduro, 11 são militares; e 11 dos 23 governadores estaduais são militares reformados. Além disso, os militares também estão presentes na Zona Econômica Militar Socialista, um complexo industrial implantado por Maduro a partir de 2013 para tentar reanimar a economia, em franca decadência. Cinco empresas, criadas logo no anúncio da iniciativa, têm relações com as Forças Armadas: um banco, uma agropecuária, uma televisão digital, uma empresa de construção e uma de fornecimento de águas subordinada ao Ministério da Defesa. Outras três empresas foram criadas desde então. “A mudança mais importante é a produção e exploração de minérios pela Caminpeg. É uma empresa militar com as dimensões em seu econômico similares à PDVA, a estatal de petróleo”, diz Rocío.

Criada no começo de 2016, a Compañía Anónima Militar de Industrias Mineras, Petrolíferas y de Gás tem como atividade a exploração de petróleo, gás e minérios, a reabilitação, manutenção e perfuração de poços petrolíferos e a importação e exportação de produtos químicos para mineração. A junta diretiva é nomeada pelo ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino López, e o governo tem ações majoritárias. Maduro assegura que ela será apenas uma “prestadora de serviços para a PDVSA”.

São os militares que estão à frente também do maior esforço governamental para enfrentar a atual crise, a Grande Missão Abastecimento Soberano, igualmente encabeçada por Padrino López. A Missão tem cuidado da importação e distribuição de alimentos para a população mais pobre através dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP). Ligados aos conselhos comunais das favelas, os comitês distribuem às famílias um saco de alimento com cerca de 12 quilos de produtos essenciais, como arroz, farinha, macarrão e óleo, a preços subvencionados pelo governo (12 mil bolívares, cerca de R$ 2 dólares, na cotação paralela). Embora com problemas, a política dos CLAP atenuou a escassez de alimentos básicos importados, que atingiu seu ápice em 2016. Naquele ano, um estudo realizado por três universidades estimou que 70% dos venezuelanos perderam em média 8 quilos – um desastre depois da drástica redução na fome obtida pelo chavismo, de 15% para 5% da população, reconhecida pela Unesco em 2015. Hoje, há um militar encarregado por cada gênero alimentício, dentro do Plan Rubro por Rubro: óleo, açúcar, café, arroz e até papel higiênico.

Quando a recente onda de protestos ultrapassou Caracas e tomou outros estados do país, gerando saques, bloqueios de ruas e estradas e ataques a instalações policiais, o governo pôs em prática a segunda fase do Plan Zamora, que utiliza o Exército para controle da ordem pública, militarizando áreas inteiras do país. Em meados de maio, o Ministério da Defesa enviou 2 mil soldados da GNB e 600 tropas de operações especiais ao estado de Táchira, na fronteira com a Colômbia. Desde maio, os militares têm também sido responsáveis por prender manifestantes em todo o país, julgados por cortes militares.

Enquanto isso, o general Padrino López não cansa de dar respaldo público ao seu presidente, seja afirmando que a Constituinte “é uma proposta revolucionária, constitucional, profundamente democrática que nós acompanhamos”, pedindo “que acabe a campanha de ódio contra as Forças Armadas”, ou apoiando publicamente a retirada da Venezuela da OEA – o secretário-geral, Luis Almagro, é um de seus alvos preferenciais. López também é historicamente leal a Chávez. Durante o golpe contra o ex-presidente, o então tenente-coronel e comandante do Batalhão de Infantaria em Forte Tiúna permaneceu leal a Chávez e chegou a oferecer ajuda ao presidente deposto. Meses antes de morrer, o líder o alçou à posição de segundo comandante do Exército. Em 2013, Maduro o nomeou chefe do Comando Estratégico Operacional e, meses depois, ministro da Defensa. Recentemente, o general garantiu que as Forças Armadas são um pilar da Venezuela “porque rechaçam todos os ataques vis e doentios impostos pela direita terrorista”.

Um dos problemas de empregar os militares em áreas estratégicas da economia é justamente o calcanhar de aquiles do governo chavista, a corrupção. Em dezembro do ano passado, uma reportagem da agência AP trouxe relatos de comerciantes que compram alimentos no mercado negro dos militares, ou que afirmam terem pago propinas diretamente ao ministro de alimentos, o general Rodolfo Marco Torres. Os repórteres também identificaram empresas offshore ligadas a familiares do ex-ministro da Alimentação, general Carlos Osorio, que hoje é inspetor-geral das Forças Armadas. O governo americano passou a impor sanções a militares e membros do governo venezuelano. Os últimos a entrar na lista negra dos americanos foram o ministro do Interior, general Néstor Reverol, e o ex-subdiretor do escritório antidrogas, general Edilberto Molina, acusados de ajudar traficantes de drogas na distribuição de cocaína para os EUA.

“O governo apoia-se nas Forças Armadas em uma dialética que até agora se mantém. No curto e no médio prazo, essa relação deve se manter”, vaticina Rocío San Miguel. Por trás dessa aliança, diz ela, há uma ameaça que bate à porta. “Há três delitos que perseguem a cúpula militar venezuelana: o narcotráfico, as violações aos direitos humanos e a corrupção”, resume a pesquisadora.

Um interlocutor realista

Buscar uma voz imparcial na Venezuela é impossível. No máximo – e com muito custo – pode-se encontrar um interlocutor realista. Luis Vicente León não é um homem “isentão”; ele acredita que Maduro está se convertendo em um governo abusivo, com traços ditatoriais. Mas sua visão como cientista de dados – ele é diretor do Instituto Datanálises, um dos mais importantes institutos de pesquisas do país – vai além de suas convicções: desde 2016, quando a crise de abastecimento de alimentos alcançou o seu auge, até o início de 2017, a popularidade de Maduro aumentou, ele reconhece. “A popularidade descendeu de maneira significativa desde que ganhou com 51% dos votos. E o seu pior momento foi em dezembro do ano passado, quando chegou a 18% de popularidade. Paradoxalmente, o presidente Maduro este ano recuperou 6 pontos percentuais de apoio popular, passando de 18% a 24% de aprovação. Isso tem a ver com uma parte importante da população que é independente, 35% dos venezuelanos se autodefinem independentes: nem chavistas nem opositores”. No entanto, ele diz que 90,5% dos venezuelanos acham que o país está mal ou muito mal e responsabilizam Maduro pessoalmente por isso. “Mas sem dúvida a liderança opositora tampouco é uma liderança apaixonante, que fale da história que este país pode ter. Eles preferem ficar brigando com Maduro.”

Para Léon, o melhor para o país seria uma negociação entre o governo e a oposição.

“Eu creio que a solução passa por uma negociação política. Sem negociação política, não há nenhuma forma de resgatar os equilíbrios. Creio que a oposição tem de construir em seus protestos o suficiente poder de negociação para obrigar o governo, não a entregar sua cabeça, mas a negociar a reinstitucionalização do país”, acredita ele.

Se isso não ocorrer – como os últimos fatos tendem a mostrar –, a tendência é que o governo siga “encapsulando os protestos em guetos” e com isso os protestos fiquem ainda mais violentos. “Isso é o que temos de evitar a qualquer custo”, diz León.

Ele aponta também outro entrave para o país chegar a uma solução, esse mais profundo e intangível. “Na Venezuela há escassez de leite, café, arroz, mas o mais escasso é a verdade. E, mais ainda, a objetividade. Aqui é um país onde nunca se sabe o que é verdade, nem nos meios de comunicação, nem nos discursos, nem nos debates, nem nas entrevistas”, diz. “O tema da verdade foi perdido completamente como um valor na Venezuela. E, claro, não somente no governo, mas também na oposição. Há uma guerra de pinóquios, onde todo mundo mente e onde você nunca sabe o que é verdade e o que é mentira. E, se você perde a verdade, simplesmente não é capaz de separar o ruído dos sinais. Então, tomar posições ou decisões se converte em um elemento muito difícil”, avalia. No momento, a Venezuela parece ter inventado a polarização que se infiltrou no resto do continente. “E, quando se está no clímax da polarização, a verdade é vista como uma traição”, lamenta León.




Eles militam pela mesma causa, mas estão em lados opostos

Carlos e Roberto são dois jovens bonitos, articulados, apaixonados pelo seu povo e pelo trabalho de mobilização social. Ambos fizeram curso superior com foco em mobilização e promoção social. Um, branco, estudou Políticas Públicas com foco em “segurança cidadã” em Harvard; o outro, pardo, estudou Gestão Social para o Desenvolvimento na Universidade Bolivariana da Venezuela. Se eles se conhecessem – e não fossem venezuelanos –, é possível que fossem bons amigos. Mas aqui em Caracas estão em campos opostos, liderando duas iniciativas que têm no fundo o mesmo propósito: driblar a escassez e a alta dos preços de alimentos através da auto-organização das comunidades em favelas. A Pública esteve com liderança jovem chavista Carlos Rodríguez, de 30 anos, e o dirigente do partido Primeira Justiça, Roberto Patiño, de 28 anos, em três favelas da capital. Em todas elas, a reclamação em relação aos CLAPs é a mesma: a bolsa de alimentos, vendida a preço subvencionado, não chega com regularidade. Demora às vezes um mês, às vezes 40 dias. E o alimento não dá para mais de duas semanas.
Roberto Patiño, dirigente do partido Primeira Justiça

Nos supermercados, os produtos tabelados são entregues através de um carnê, e é preciso fazer filas de horas para conseguir algo. Muitas vezes não se consegue os produtos básicos. Outros têm preços proibitivos por causa da alta inflação e do estratosférico dólar paralelo. Mesmo os vegetais e frutas, produzidos no país, são muito caros. A solução é racionalizar, comendo menos. A Encuesta Nacional de Condicionantes de Vida (Encovi), realizada pelas universidades Central de Venezuela (UCV), Católica Andrés Bello (Ucab) e Simón Bolívar (USB), estimou que 9,6 milhões de venezuelanos, cerca de um terço da população, dizem comer duas vezes ou menos ao dia. É por isso que algumas famílias têm se dedicado a buscar comida nos lixos das áreas mais ricas das cidades, um escândalo numa sociedade que não está acostumada à fome, mas longe de ser uma situação de escassez severa conforme a definição da ONU, o que significaria mais de 20% da população sem ter o que comer. 

A liderança jovem chavista Carlos Rodríguez
Para complementar a alimentação das bolsas, Patiño se juntou a grupos de mães de comunidades como Los Merecedores, antigo centro chavista. “O programa nasceu quando coordenei os jovens da campanha de Capriles em 2012, e ao tocar muitas portas vi a desconfiança da gente com a política”, diz ele. São sete refeitórios em diferentes favelas, que oferecem alimento gratuito para 700 crianças antes de irem à escola. As mães ficam responsáveis por preparar a comida.

O que Patiño pede em troca é “coração aberto” para ouvir suas propostas, que são discutidas em reuniões que se realizam a cada 15 dias. Em uma manhã de maio, sentados em banquetas, cerca de dez mulheres e homens conversam sobre a crise política, enquanto na cozinha duas senhoras preparam o menu do dia: creme de abóbora, arroz e carne moída. Embora todos os filhos estejam estudando em escolas públicas, que oferecem lanche, uniforme, material escolar e até computadores, eles dizem que já não conseguem comprar comida suficiente. Ali, a única que ainda se diz chavista, Yurima Carillo, atrai críticas dos demais. “Peraí”, diz ela. “Eu sou chavista, mas consciente. O que Chávez fez com as mãos, Maduro destruiu com os pés.” Em seguida, ela explica por que tem receio da oposição: “Eles querem o poder para este lado e os outros querem o poder para o outro lado. Nenhum quer soltar a batuta. Quem está levando duro somos nós, pobres, que vivemos nas favelas, que não temos para sair para marchar. Como vamos marchar com o estômago vazio?”, pergunta.


Reunião realizada por Patiño no refeitório em Los Mecedores
  No tradicional bairro de San Agustín, conhecido local de música popular na capital venezuelana, o chavista Carlos “Camarada” Rodríguez, do coletivo Insurgente, chega ao belíssimo centro cultural com desenvoltura. No galpão gigante, enfeitado com imagens icônicas de músicos da comunidade – todos negros –, há um grupo tocando tambores para saudar a Santa Cruz. É ali que ocorrem as feiras do projeto Pueblo a Pueblo, tocado pela Coalizão Unidos San Agustín, da qual ele faz parte. A cada mês, a comunidade se reúne em uma assembleia para definir quais os vegetais que devem ser entregues diretamente por produtores do estado de Trujillo. Um saco de 12 quilos de vegetais chega a custar 7 mil bolívares (cerca de US$ 1, na cotação paralela) e o programa atende 200 famílias. “O que esse plano permite é varrer os intermediários, economizar recursos para as comunidades e dar rosto à economia. De um lado, é um homem que produz e, do outro, uma mulher que come. Então tem um conteúdo social e político, de formação”, explica Carlos, que também é funcionário do governo federal, encarregado de fiscalizar a produção de pães pelas padarias do bairro.
Yurima Carillo, a única chavista do refeitório em Los Mecedores
 O projeto é tocado com firmeza por senhoras negras, elegantes, e chavistas até o âmago, como Marisol Olivares, de 64 anos. “Estamos tratando que toda comunidade se envolva no trabalho, para que tenha sua bolsita. Cada família tem que mandar um representante”, explica ela. Sobre a escassez, ela não tem dúvida:“É a mesma guerra econômica que sempre travaram contra nós. É um grupo que é minoria e que sempre, desde que estava vivo nosso comandante, nunca deixou que exercesse todo o poder. Mas com todo o problema que tivemos com a escassez da comida nós seguimos adiante, não vamos nos dar por vencidos e não vamos permitir que eles voltem”.
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FONTE: Agência Pública
FOTOS: Manuel Rueda (Agência Pública)