BOAS VINDAS

A idéia deste blog é a criação de um espaço para o questionamento de duas grandes forças das ideologias atuais: o Capitalismo e o Socialismo. Que, senão são coincidentes,não são também totalmente opostas. Terceira Via é nada menos do que uma Resultante dessas duas forças. Abrindo assim, um campo para o existência de uma opção, que não é uma coisa nem outra e ao mesmo tempo são as duas coisas. Eu acredito muito nessa vertente, como alternativa para convergir anseios de ambas as correntes. Num olhar metodológico, poderiamos enxergar essa possibilidade como uma demonstração empírica da dialética. Enquanto o Capitalismo está mais associado ao racional, à eficiência, à lógica; o Socialismo está mais associado ao nosso cognitivo, à sensibilidade, sentimentos, percepções, etc. Acredito ainda, que só a Democracia viabiliza essa vertente. A Ditadura, sem dúvida, enviesará para o socialismo ou para o capitalismo radical. ENTÃO SEJA BEM VINDO, COLOCANDO SUA CONTRIBUIÇÕES, SUAS IDÉIAS, SUAS DÚVIDAS, ETC. (Paulo Franco)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Na Coréia do Norte, todos os caminhos levam à catástrofe

Por Jon Schwarz



O ASPECTO MAIS ALARMANTE do recente teste nuclear conduzido pela Coreia do Norte, no contexto da tensão crescente com os EUA, é o quão pouco se sabe sobre como realmente funciona o país asiático. Há 70 anos, a Coreia do Norte está isolada do resto do mundo – algo quase inconcebível para os tempos atuais, em que basta um clique para que uma pessoa em Buenos Aires compartilhe um vídeo de gatinhos em Kuala Lumpur. Poucos estrangeiros tiveram contato íntimo com a sociedade norte-coreana, e pouquíssimo podem falar com propriedade a respeito do país.

Uma dessas raríssimas exceções é a escritora e jornalista Suki Kim. Ela nasceu na Coreia do Sul e se mudou para os Estados Unidos aos 13 anos. Passou boa parte do ano de 2011 ensinando inglês para filhos da elite norte-coreana na Universidade de Ciência e Tecnologia de Pyongyang(PUST).

A jornalista já havia visitado a Coreia do Norte diversas vezes e escrito sobre a experiência para a Harper’s Magazine e a New York Review of Books. Ainda assim, inacreditavelmente, nem os responsáveis norte-coreanos pela estadia de Kim no país nem os missionários cristãos que fundaram e administram a PUST perceberam que ela estava infiltrada para realizar uma das missões de jornalismo investigativo mais arriscadas da história.

Embora todos os empregados da PUST fossem mantidos sob vigilância constante, Kim conseguiu guardar anotações e documentos em pendrives escondidos e no cartão de memória de sua câmera. Se tivesse sido descoberta, muito provavelmente teria sido acusada de espionagem e condenada à prisão nos terríveis campos de trabalho forçado do país. Dois dos três americanos atualmente presos na Coreia do Norte eram professores da PUST. O Pentágono já até usou uma ONG cristã como fachada para fazer espionagem na Coreia do Norte.

Mas Kim conseguiu não ser descoberta e pôde regressar aos EUA para escrever seu extraordinário livro, lançado em 2014: “Without You, There Is No Us” (“Sem você, não há nós”, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil). O título vem da letra de uma antiga canção norte-coreana; “você” é Kim Jong-il, pai de Kim Jong-un, atual líder do país.

O livro é especialmente relevante para qualquer pessoa que tenha a intenção de entender o que pode vir a acontecer na Coreia do Norte. A experiência a tornou extremamente pessimista sobre todos os aspectos do país, incluindo a resistência do governo a renunciar ao seu programa de armas nucleares. Ela considera que a Coreia do Norte funciona como um verdadeiro culto e que toda a existência do país anterior a esse sistema já foi apagada da memória coletiva.

Ainda mais preocupante foi perceber que seus alunos, rapazes no fim da adolescência e começo da vida adulta, estavam profundamente inseridos nesse culto. A autocracia da família Kim está na terceira geração, e seria de se esperar que as elites norte-coreanas já tivessem abandonado qualquer ideologia inicial e se corrompido, como é o padrão da humanidade. Mas seus filhos, alunos da PUST, não iam esquiar na Suíça durante as férias escolares, nem mesmo viajavam dentro do próprio país. Em vez disso, passavam as férias estudando a ideologia norte-coreana “Juche” ou trabalhando nas fazendas coletivas.

Não é de se espantar, portanto, que os alunos de Kim fossem completamente ignorantes sobre assuntos externos, incapazes de reconhecer fotos do Taj Mahal ou das pirâmides do Egito. Um deles disse ter ouvido que todas as pessoas no mundo falavam coreano, que teria sido reconhecido como o idioma mais avançado de todos. Outro aluno acreditava que o prato coreano “naengmyeon” era considerado a melhor comida do planeta. Ademais, estavam imersos numa cultura da falsidade. Contavam mentiras tão absurdas que Kim chegou a escrever: “Eu só podia imaginar que eles, meus queridos alunos, fossem loucos”. Apesar disso, eles eram também bastante humanos, de uma inocência encantadora, e se afeiçoavam aos professores.

A história contada em “Without You, There Is No Us” é, em resumo, de uma tristeza insuportável. A Coreia, ainda unificada, foi feita de joguete por Japão, EUA, União Soviética e China. Como tantas famílias coreanas, a de Kim tem parentes próximos que ficaram na Coreia do Norte quando ocorreu a divisão, e nunca mais foram vistos. Kim considera que a Coreia hoje está definitivamente fraturada:

Então, pensei que era tudo inútil, a fantasia de uma união coreana, os cinco mil anos de identidade. Porque uma nação unificada foi partida de forma irreparável em 1945, quando um grupo de políticos traçou uma linha aleatória sobre o mapa e separou famílias que jamais voltaram a se reencontrar. Seu ódio, sua tristeza e seu arrependimento não foram reconhecidos, e seus corpos se tornaram terra, parte desse solo…. Por trás dos filhos da elite que agora eram meus pupilos por um curto período, por trás dessas crianças adoráveis e mentirosas, eu via claramente que não haveria redenção possível.

The Intercept conversou recentemente com Kim sobre sua temporada na Coreia do Norte e a perspectiva que esse período deu a ela sobre a crise atual.


JON SCHWARZ: Achei seu livro insuportavelmente doloroso. Sou americano, e não consigo imaginar como é viver num lugar brutalizado por tantos países poderosos. O governo da Coreia do Norte, e, em menor escala, o da Coreia do Sul usaram esse sofrimento para consolidar seu poder. E talvez o mais triste tenha sido perceber que esses rapazes, seus alunos, ainda eram claramente pessoas, seres humanos, mas estavam inseridos num sistema terrível, programados para fazer coisas terríveis a seus conterrâneos.

SUKI KIM: Sim, porque não há outra forma de estar naquele país e não há outro país como aquele. As pessoas comparam com tanta facilidade a Coreia do Norte a Cuba, à Alemanha Oriental ou até mesmo à China, mas em nenhum desses países existiu algo semelhante ao que vem acontecendo na Coreia do Norte, esse nível de isolamento e controle que reúne as características de culto e ditadura. Enquanto estava lá, comecei a pensar que já é quase tarde demais para voltar atrás; os jovens com quem eu convivia nunca tinham vivido de outra forma.

Tudo começou com a divisão da Coreia em 1945. É comum pensar que teria começado com a Guerra da Coreia, mas a guerra só aconteceu por causa da divisão [da Coreia, realizada pelos EUA e pela URSS ao fim da II Guerra Mundial] em 1945. O que vemos hoje é a Coreia presa no limbo.

JS: Praticamente nenhum americano sabe o que aconteceu entre 1945 e o começo da Guerra da Coreia, e poucos sabem o que ocorreu durante a guerra. [Syngman Rhee, o ditador de extrema-direita instalado pelos EUA na Coreia do Sul, massacrou dezenas de milhares de sul-coreanos antes da invasão pela Coreia do Norte em 1950. Depois disso, já nos primeiros meses da guerra, foram executados pelo governo de Rhee mais cem mil sul-coreanos, até que um bárbaro ataque aéreo dos EUA matou cerca de um quinto da população da Coreia do Norte.]

SK: Sobre o tão falado “mistério da Coreia do Norte”, talvez as pessoas devessem se perguntar por que a Coreia é um país dividido e por que há soldados americanos na Coreia do Sul. Essas perguntas não estão sendo feitas. Quando você olha para a origem da situação, faz algum sentido que a Coreia do Norte use esse ódio pelos EUA como ferramenta para justificar e manter o mito do Grande Líder. O Grande Líder sempre foi o salvador, o libertador que protegia as pessoas do ataque do imperialismo americano. A História da Coreia do Norte se funda não só na filosofia Juche, mas também no ódio aos EUA.


JS: A partir da sua experiência, como você entende a questão nuclear na Coreia do Norte?

SK: Nada vai mudar, porque é um problema insolúvel, chegar a ser desonesto pensar que possa ser resolvido. A Coreia do Norte nunca vai desistir de ter armas nucleares. Nunca.

Só seria possível negociar com a Coreia do Norte se o regime não fosse o que é. Nenhum acordo é respeitado, simplesmente porque a Coreia do Norte não funciona assim, é uma terra de mentiras. Por que continuar tentando fazer acordos com alguém que nunca irá cumpri-los?

Todos os países ao redor da Coreia do Norte desejam uma mudança de regime político. Eles dizem, porém, que não é isso que querem, e fingem estar buscando acordos enquanto, na verdade, procuram meios de derrubar o regime.

O que resta a fazer é empreender esforços para envolver as pessoas, forçando a entrada de informação no país. Essa é a única alternativa, não vejo outra forma de causar mudanças na Coreia do Norte. Nada vai mudar se o lado de fora não despejar recursos lá dentro.

JS: Qual a motivação dos poderosos da Coreia do Norte para se agarrar às armas nucleares?

SK: Eles não têm outra alternativa, não têm literalmente nada além disso. As tentativas de negociação só continuam acontecendo porque eles são uma potência nuclear, é uma questão de sobrevivência. O que eles temem é a mudança do regime sobre o qual o país está assentado.

JS: Mesmo se o regime mudasse, seria difícil convencê-los, com argumentos racionais, a abrir mão do armamento nuclear, depois do que aconteceu com Saddam Hussein e Muamar Kadafi.

SK: É realmente uma equação simples: não há motivo para renunciar às armas nucleares. Nada vai fazer com que renunciem.

JS: Sempre me pareceu que a Coreia do Norte não faria o primeiro movimento numa guerra nuclear, até mesmo por um senso de autopreservação. A descrição que você faz dos seus alunos, no entanto, me fez pensar que o risco de um erro de cálculo por parte deles é maior do que eu imaginava.

SK: Era paradoxal: eles até podiam ser inteligentes, mas eram completamente iludidos sobre tudo. Não vejo como as pessoas que governam o país seriam diferentes. Aqueles com quem os estrangeiros têm contato, como os diplomatas, são sofisticados e conseguem conversar no mesmo nível. Mas até eles têm um outro lado, pois foram criados para pensar de forma diferente, sua realidade é distorcida. 

Para eles, a Coreia do Norte é o centro do universo, o resto do mundo simplesmente não existe. Eles viveram os últimos 70 anos dentro desse culto total.  Era 2011, e meus alunos não sabiam o que era a internet – alunos de computação das melhores escolas de Pyongyang. O sistema é assim, brutal, para todos.

JS: Mesmo os pais mais influentes tinham pouca autonomia para tomar decisões que envolviam seus próprios filhos. Eles não podiam trazer seus filhos para casa, não podiam ir visitá-los.

SK: Seria de se imaginar que exceções fossem frequentemente abertas [para os filhos da elite], mas isso simplesmente não acontecia. Eles não podiam ligar para casa, não havia qualquer forma de se comunicar com os pais. Literalmente, nenhuma exceção. Para nenhum poder ou agência.

Também me espantou o fato de eles não viajarem para outros lugares dentro do próprio país. Você poderia pensar que todos esses jovens de elite deveriam ao menos conhecer as famosas cadeias de montanhas [da Coreia do Norte], mas nenhum deles jamais esteve lá.

Esse poder absoluto é a razão para a Coreia do Norte ser o que é.

JS: Qual seria sua recomendação se pudesse criar políticas em relação à Coreia do Norte para os EUA e outros países?

SK: É uma situação que ninguém conseguiu ainda resolver. Não é um sistema que eles possam moderar. O Grande Líder não pode ser moderado, não pode ser menos divino. O sistema do Grande Líder precisa ser rompido.

É impossível, porém, imaginar como isso aconteceria. É uma perspectiva completamente desanimadora. As pessoas foram destituídas de todas as ferramentas que seriam necessárias para pensar de maneira independente: educação, informação, possibilidade de compartilhamento.

Uma intervenção [militar] não funcionaria porque o país é uma potência nuclear. Minha opinião é que precisa acontecer, de alguma forma, um fluxo, um derramamento de informações para dentro da Coreia do Norte. O problema é que a população é vítima de abuso por uma ideologia de culto. Mesmo que não haja mais o Grande Líder, alguma outra forma de ditadura virá substituí-lo.

Todos os caminhos levam à catástrofe, e é por isso que até os desertores do regime, quando fogem, frequentemente se tornam cristãos fundamentalistas. Eu queria poder sugerir alternativas, mas tudo leva a becos sem saída.

A única coisa que chegou a me dar um pouco de esperança foi o fato de Kim Jong-un ser mais imprudente que o líder anterior [seu pai, Kim Jong-il]. Mandar matar seu tio e seu irmão poucos anos depois de assumir o poder não cai bem para um sujeito que só está no poder por conta do sobrenome. Se é só a linhagem que o mantém naquela posição, ele não deveria se autossabotar matando membros da própria família.

JS: Em uma perspectiva histórica, normalmente seria de se esperar que a família real ficasse maluca demais, aparecesse algum neto muito lunático, e então os militares e o poderio econômico decidiriam que não precisavam mais daquele cara, iriam se livrar dele, e assumiriam o comando. Na Coreia do Norte, no entanto, isso parece impossível: essa família precisa estar no poder, os militares não podem dizer “ah, então, o país agora é comandado por um general qualquer”.

SK: A marca do Grande Líder, que eles construíram, é muito poderosa. É por isso que o assassinato de Kim Jong-nam [meio-irmão mais velho de Kim Jong-un e herdeiro original da dinastia Kim] foi uma decisão idiota. O que se demonstrou ali foi que a linhagem real pode ser assassinada, e isso abre uma brecha para essa alternativa porque há outras figuras da dinastia que podem ser colocadas no lugar. Ele não é único. Matar [Jong-nam] criou um precedente para que isso aconteça.


JS: Um detalhe que achei especialmente estarrecedor foi o sistema de parcerias entre os alunos. Todos tinham um parceiro com quem passavam bastante tempo, e de quem pareciam muito amigos – até que esse parceiro era substituído, e os dois nunca mais voltavam a andar juntos.

SK: O sistema de parceria existe apenas com um propósito de vigilância, não interessa que se trate de rapazes de 19 anos tentando fazer amigos. É essa a medida em que não se reconhece nem se respeita a humanidade de cada um. Há uma canção norte-coreana que compara cada cidadão com uma bala em uma imensa arma para o Grande Líder. Eles vivem assim.

JS: Também fiquei impressionado com a descrição que você faz da degeneração da linguagem na Coreia do Norte. [Kim escreveu: “Cada vez que eu visitava a RDPC, a República Democrática Popular da Coreia, sentia o impacto da degradação do idioma coreano. Os palavrões haviam sido incorporados não apenas às conversas e aos discursos, mas também à linguagem escrita. Estavam por toda parte: em poemas, jornais, discursos oficiais do Partido dos Trabalhadores e até em letras de música. Era como encontrar as palavras “porra” e “merda” num discurso presidencial ou na primeira página do New York Times.”]

SK: Sim, tenho a impressão de que a linguagem reflete a sociedade. O sistema é todo construído em cima de um risco de guerra iminente, e essa violência mudou o idioma coreano. Além disso, Kim Jong-un e sua turma são marginais, esse é o estilo deles, e esse estilo tomou o país inteiro.

JS: O mau gosto parece ser um problema comum aos ditadores de todo o mundo.

SK: É interessante analisar a Coreia do Norte em meio ao período atual dos EUA, porque é possível perceber muitas semelhanças. Basta olhar para as incessantes publicações de Trump no Twitter acusando todas as notícias de “fake news” e repetindo o quanto ele mesmo é incrível. É muito parecido com o que acontece na Coreia do Norte, um fluxo constante de propaganda política. Edifícios com slogans que parecem gritar, reiterando a mensagem de que os inimigos mentem o tempo todo. As frases de efeito, resumidas para caber em um tweet, são muito parecidas com os slogans da Coreia do Norte.

Esse país em que estamos hoje, onde não é mais possível discernir entre verdade e mentira, a começar do que vem de cima, tem o mesmo grande problema da Coreia do Norte. Os Estados Unidos deveriam prestar atenção, pois há uma lição a ser aprendida.

JS: Eu me senti mal depois de ler seu livro, e agora estou me sentindo ainda pior.

SK: Para ser sincera, eu me pergunto se existe um prazo em relação às tragédias – não para solucioná-las, mas para torná-las menos terríveis. Me parece que já é tarde demais no caso da Coreia do Norte. Quando você consegue eliminar qualquer traço de humanidade a esse nível, ao longo de três gerações… O horror se torna ainda maior quando transparece a humanidade dos norte-coreanos. É aí que nos damos conta do quanto a humanidade pode ser distorcida, manipulada e violada. É aí que nos deparamos com a total devastação do que está de fato em jogo.
____________________
Essa entrevista foi editada por razões de tamanho e clareza.

Foto em destaque: Uma pintura exposta no Ministério das Ferrovias retrata um trem que certa vez transportou Kim Jong-il. Dizia-se que ele teria morrido num trem enquanto viajava incansavelmente para assegurar o bem-estar de seu povo. Exposição Kimjongilia, 2002.

Tradução: Deborah Leão

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Celso Amorim: servi com um estadista​ (Lula)

Por Celso Amorim

O fórum IBAS (Índia, Brasil e África do Sul)não somente abriu novos caminhos para a cooperação sul-sul como esteve na raiz da criação do BRICS, que se constituiu em importante fator de equilíbrio na ordem econômica internacional, até então dominada pelo G7 (grupo de economias mais ricas).

Celso Amorim discursando na Assembleia Geral da ONU

Foi com enorme honra que recebi, em dezembro de 2002, o convite do Presidente Lula para ser seu Ministro das Relações Exteriores. Diplomata de carreira, eu fora chanceler de Itamar Franco e havia representado o Brasil,em diversos governos, perante às Nações Unidas, em Nova Iorque, à Organização Mundial do Comércio e outras organizações internacionais em Genebra. Quando recebi o convite, era Embaixador do Brasil junto ao governo britânico. 

A opção do presidente recém-eleito por um funcionário de carreira já denotava sua visão sobre como deveria ser conduzida a política externa em seu governo, já que não faltavam, nos próprios quadros do Partido dos Trabalhadores, pessoas com qualificações e com amplo conhecimento e experiência na realidade internacional. Mais do que qualquer outra coisa – uma vez que jamais tivéramos contato direto – , o Presidente Lula quis significar, com essa opção, que a política externa do Brasil, sem deixar de ser sensível aos anseios populares que o levaram ao poder, seria, sobretudo, uma política de Estado.

Desde logo, percebi que havia grande sintonia em nossas visões. Ao falar à imprensa no momento em que minha indicação foi anunciada, limitei-me praticamente a dizer que a política externa seria levada adiante de forma “ativa e altiva”. Foi esse sentimento, de profundo respeito pela dignidade do país, ao lado da crença na capacidade do povo brasileiro de enfrentar desafios, que norteou nossas posições e iniciativas no cenário internacional. A auto-estima substituiu o inexplicável complexo de inferioridade, que, afora alguns momentos excepcionais, costumava marcar a nossa atuação diplomática.

Celso Amorim em palestra na Casa Portugal em 2016

Durante o governo Lula, o Brasil rejeitou acordos comerciais desvantajosos que se nos queriam impor; trabalhou intensamente pela integração sul-americana; fortaleceu as relações com os demais países da América Latina e Caribe; intensificou laços de amizade com a África e os países árabes e rompeu novos horizontes na formação de fóruns e blocos com as grandes nações emergentes. Sem hostilizar nossos parceiros do mundo desenvolvido (ao contrário, criamos uma “parceria estratégica” com a União Europeia e um “diálogo global”com os Estados Unidos), trabalhamos em favor de um mundo mais multipolar, no qual os interesses do Brasil e dos países em desenvolvimento como um todo pudessem ser afirmados e respeitados.

Durante as duas gestões do Presidente Lula, o Brasil liderou a criação de uma organização política sul-americana (a Unasul) e esteve à frente da iniciativa da CELAC – Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos. Pela primeira vez em duzentos anos de vida independente foi possível criar órgãos que representassem o conjunto da América do Sul, e da América Latina e Caribe, sem qualquer tipo de tutela externa. O fórum IBAS (Índia, Brasil e África do Sul)não somente abriu novos caminhos para a cooperação sul-sul como esteve na raiz da criação do BRICS, que se constituiu em importante fator de equilíbrio na ordem econômica internacional, até então dominada pelo G7 (grupo de economias mais ricas). O Presidente Lula esteve à frente, também, de importantes lutas para erradicar a fome e a pobreza no mundo e para facilitar o acesso de populações pobres a tratamentos de saúde. Sua liderança na reforma das regras do comércio e das finanças internacionais foi amplamente reconhecida, o que se espelhou sobretudo no G20, o grupo das maiores economias, que, para efeitos práticos, substituiu o G7 como principal foro internacional em temas econômico-financeiros.

Erdogan, Ahmadinejad e Lula ao lado de Amorim comemoram vitória no acordo Nuclear com o Irã

No plano da paz e da segurança, o Brasil foi chamado a participar de esforços em prol de uma solução pacífica no Oriente Médio, como ocorreu no caso da Conferência de Annapolis, em relação ao conflito Israel-Palestina (o Brasil foi um dos três únicos países em desenvolvimento não-predominantemente islâmicos a participar do encontro). Juntamente com a Turquia, estivemos, em 2010, no centro de uma importante iniciativa para solucionar o problema em torno do programa nuclear iraniano, que viria servir de inspiração ao acordo estabelecido entre as grandes potências e Teerã, em 2015.

Durante os oito anos em que servi diretamente sob as ordens do presidente Lula, pude testemunhar a admiração que ele inspirava nos estadistas das mais variadas partes do mundo. Não seria exagero dizer que, durante esses anos, o Brasil era um “farol” que apontava o caminho do desenvolvimento em direção a uma sociedade mais justa e democrática em um mundo política e economicamente mais equilibrado. Nesses anos, o respeito pelo Brasil atingiu níveis nunca antes alcançados e a figura do nosso presidente era reverenciada por todos, ricos ou pobres, poderosos ou fracos. 


Em vários momentos, principalmente nas longas viagens ao redor do mundo, participei de conversas reservadas, em que temas de política internacional se misturavam com os da situação interna no nosso país. Durante todos esses momentos, jamais presenciei, da parte do Presidente Lula, gesto ou palavra que não fosse indicativa de sua absoluta integridade moral e dedicação aos objetivos maiores do povo brasileiro. 

Recordo-me de uma primeira viagem pelo interior do Nordeste, em que Lula fez questão de mostrar aos seus ministros (a maioria dos quais oriundos de partes mais bem aquinhoadas do país) a verdadeira realidade brasileira. Constatei, com misto de surpresa e espanto,não só a afeição mas também a confiança que o povo pobre do Brasil depositava no líder que acabara de assumir. Há poucas semanas, acompanhei novamente Lula em um trecho de sua “caravana” àquela região e pude constatar que a mesma relação de confiança se preservou. Melhor: foi reforçada pelos avanços sociais que seu governo trouxe. É, pois, com grande tristeza, que vejo as tentativas daqueles que sempre defenderam privilégios de classe e atitudes de dependência em relação a potências estrangeiras de desconstruir a imagem e a obra daquele que foi, sem dúvida, o maior líder popular que o Brasil já teve.

Lula nos braços do povo

Como tantos brasileiros, confio que a justiça, afinal, prevalecerá e que Lula poderá seguir conduzindo o Brasil no rumo de uma sociedade menos desigual e de uma posição de respeito, independência e dignidade no plano internacional. 

Brasília, 7 de setembro de 2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

As 10 maiores ilegalidades da Lava Jato

Por Anderson Bezerra Lopes

O advogado Anderson Bezerra explica quais são as 10 maiores ilegalidades da Lava Jato.  Essas ilegalidades serão apresentadas e detalhadas uma por vez em um vídeo entrevista. 

Bezerra Lopes é advogado. Mestre em Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Universidade de Coimbra em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (2008). Graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2007). Membro do Conselho Editorial do Boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Membro da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP). Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB).

ILEGALIDADE #4: A VIOLAÇÃO DAS PRERROGATIVAS DOS ADVOGADOS



ILEGALIDADE #3: A DENÚNCIA ANÔNIMA



ILEGALIDADE #2: USURPAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO STF




ILEGALIDADE #1: A INCOMPETÊNCIA JURISDICIONAL




____________________